Alice in Waterland: o outro lado da história

Quem poderia imaginar que Alice ganharia o coração de tantas pessoas? Com mais de 150 anos, a menina curiosa de cabelos dourados ainda é fonte de inspiração para filmes, eventos, histórias, releituras e até mesmo fotografias. Como se não bastasse ter conquistado espaço nos cinemas, na literatura e nos canais infantis, a garotinha também amoleceu os fotógrafos e tem uma afinidade imensa com as câmeras. Elena Kalis, por exemplo, fez um ensaio fotográfico incrível sob as águas de Bahamas com sua filha, Sacha. A fotógrafa russa é especialista quando se trata de fotografias embaixo d'água, por isso, resolveu recriar a história de Alice de uma forma peculiar, que, mais tarde, foi batizada de Alice In Waterland. Quando questionada sobre a ideia, Elena apenas disse que Alice no País das Maravilhas é atemporal e aberta para inúmeras interpretações, além disso, a história em si parece ser de um lugar completamente diferente, como dentro da água.
O projeto começou quando Sacha ainda tinha 10 anos, idade que Alice tinha quando caiu na toca do coelho e começou uma aventura surreal, mas foram dois anos inteiros até que o ensaio ficasse pronto por completo e tomasse forma. A menina, acostumada com a água desde muito pequena, é a modelo preferida da mãe, que a coloca em momentos incríveis, fazendo parte de fotos impecáveis. Para a fotógrafa, não há diferença entre fotografar no solo ou na água, as dificuldades são as mesmas, porém, com a ajuda gravitacional e os movimentos do mar, a surrealidade toma conta das imagens e transparece exatamente aquilo que ela tanto quer: a mágica de um clique.
Apesar de Elena ser especialista nas fotos subaquáticas, este ensaio em especial se tornou um dos mais conhecidos. Referenciado e publicado em inúmeros blogs e sites, a história fotográfica ganhou uma dimensão inexplicável até mesmo para ela. Com espelhos, boias, fantasias e elementos visuais muito atrativos, o ensaio conta um outro lado da história de Alice, sem necessariamente ser fiel ao livro ou aos personagens. A intenção, aqui, é apenas mostrar que a magia acontece em qualquer lugar e que a coisa mais simples do mundo pode se tornar um grandioso espetáculo, como uma grande brincadeira de criança

Clássicos em tempos modernos


É certo que todo leitor já imaginou os personagens preferidos se tornando reais, ou, no caso da literatura de época, adaptando partes da história para os tempos modernos. Quem nunca se pegou sonhando com a dúvida do que aconteceria com Romeu e Julieta caso eles vivessem no século XXI? Será que uma simples troca de mensagens pelo celular não mudaria aquele final trágico e inconveniente? Será que teríamos mais um felizes para sempre a história da literatura? Quatro youtubers estão à frente da nossa singela imaginação e colocaram em prática exatamente isso no livro O Amor Nos Tempos de #Likes.A obra é dividida em três pequenas histórias modernas baseadas em alguns personagens clássicos da literatura que se destacam pela personalidade própria.
primeiro conto é sobre Liz, uma youtuber que viaja para a terra natal com a intenção de visitar os familiares, mas uma tempestade, um aeroporto, um garoto misterioso e uma senhora que conta histórias acabam por transformar o pensamento da garota com relação ao Dia dos Namorados. Ela finalmente encontra alguém que entende os medos que carrega consigo e que compartilha do mesmo sentimento de nunca ser boa o suficiente para a sociedade. Aqui, temos uma releitura de Elizabeth Bennet, a personagem principal de Orgulho e Preconceito, uma das obras mais conhecidas de Jane Austen. Liz e Elizabeth tem muito em comum, começando pela personalidade forte e o jeito durão. Ambas se fecham no primeiro sinal de fragilidade, mas carregam um coração imenso e repleto de sentimentos que ficam gritando para serem libertados.



Apesar das dores de cabeça, as mentes inquietas, as conferências que não terminavam nunca e as madrugadas longas de conversas, a obra ficou pronta e já está fazendo muito barulho por aí. O tour de lançamento acabou, mas os autores estão sempre ligados nas mensagens dos leitores, fazendo vídeos sobre os próximos lançamentos ou até mesmo respondendo dúvidas sobre a vida que levam. O bom é que, agora, finalmente podemos afirmar que o amor continua a dar aquele frio na barriga e fazer os jovens atravessarem quilômetros para viver uma paixão arrematadora.

A importância de ler os clássicos

Durante o Ensino Médio, uma das torturas mais conhecidas pelos estudantes são as aulas de Português, que os obrigam a ler livros clássicos maçantes e truncados. Por um lado, conseguimos entender o motivo desse desgosto, já que muitas histórias realmente não agradam a todos e a linguagem formal faz com que a leitura se torne cansativa, ainda mais quando um hobby tão gostoso precisa ser colocado em prática por obrigação, maquiando o prazer de ler um livro por opção. No entanto, também temos um outro lado, que é o valor incalculável das histórias épicas que ajudam no entendimento da sociedade, proporcionam reflexões e captam a essência dos sentimentos humanos mais complexos. Talvez a leitura dessas obras em determinados períodos das nossas vidas não seja tão apropriado devido à distrações e impaciências, mas são justamente esses livros que podem ajudar em experiências futuras, fornecendo modelos e moldando personalidades.
Mesmo com todos os pontos negativos, a estudante do curso de Letras, Jéssica Barros, de 21 anos, afirma que o clássico é aquele livro atemporal, independentemente de ter sido escrito há um século atrás, pois ele continua passando uma mensagem universal. Para ela, a literatura clássica tem uma importância imensa na formação de cada pessoa, contribuindo para a criatividade e estimulando a imaginação.
"Desde muito pequena sempre tive contato com a literatura. Os clássicos surgiram muito cedo para mim, com os contos de fadas. Conforme fui crescendo e me aventurando nesse mundo, descobri uma paixão imensa pelos livros da Jane Austen. Hoje em dia, quase concluindo o curso de Letras, sou ainda mais apaixonada pelos clássicos, sejam os mais antigos até os mais novos, mas que já estão sendo considerados partes da literatura universal."
Muitos professores da Língua Portuguesa também falam que esse contato com os enredos clássicos proporciona ao indivíduo a construção do senso crítico. Em entrevista, José Theobaldo, formado em Pedagogia pela Universidade Federal de Santa Catarina e professor de Português pela Secretaria da Educação, afirma que a literatura clássica é fundamental para o entendimento da produção intelectual e para o debate acerca do objeto literário. Até mesmo as adaptações cinematográficas, por ter uma linguagem artística de grande renome e por sua efetiva penetração na mente das pessoas, devem ser estimuladas. Além disso, José relata que o maior ensinamento que um clássico pode proporcionar ao leitor é o fato de ser atemporal, podendo ser lido e relido inúmeras vezes, contextualizando momento indescritíveis da história da humanidade.

O professor também deixa claro que sua obra favorita é Dom Quixote. Ela foi publicada em uma época de grandes transformações, satirizando o estilo literário dos romances de cavalaria, criando uma paródia dos cavaleiros heroicos. O motivo do personagem ser lembrado até hoje é simples: em idade avançada, o nobre passa a ter alucinações por ler com muita frequência esse tipo de romance, passando a crer que todas as ações heroicas são reais e que ele próprio poderia ser um desses cavaleiros. Assim, com um capacete de papelão e uma armadura velha, ele é Dom Quixote, um nômade que sai mundo agora enfrentando perigos devido a sua fértil imaginação.

O próprio personagem afirma que há duas formas de enxergar o mundo: não enxergar nada além do que os olhos podem ver ou analisar os detalhes que levam as coisas e pessoas a serem como são. Para alguns, ele é apenas mais um louco, para outros, Dom Quixote é a prova de que os heróis não tem mais espaço no mundo moderno.

Um estudo realizado em 2013 pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, demonstra como as obras clássicas estimulam e geram muito mais atividade no cérebro das pessoas por conta de uma linguagem mais desafiadora. Com a ajuda de scanners, Philip Davis, professor da universidade, monitorou a atividade cerebral de 30 voluntários enquanto eles liam alguns clássicos e outras referências literárias que comprovaram essa teoria. Além disso, os clássicos também revelam sentidos para a existência humana de forma universal e atemporal, sintetizando tudo aquilo que a sociedade foi aprendendo e conhecendo a respeito da vida com o passar dos anos.
O psicólogo Jorge Silveira relata que, principalmente na fase de crescimento, as crianças, quando incentivadas a lerem histórias, sejam elas clássicas ou não, constroem uma formação de caráter diferenciada daquelas que não são estimuladas. Isso se dá porque geralmente as crianças tomam as atitudes alheias como espelhos para sua própria realidade. No caso da literatura clássica, por conter aspectos históricos e culturais, as histórias possuem ainda mais significância, pois faz com que o indivíduo conheça o seu meio e um passado da qual não teve contato, mas que precisa conhecer para compreender o mundo atual e a sociedade em que está inserido.
"Vejo os livros clássicos como uma oportunidade única para as pessoas entenderem além daquilo que estão enxergando. O mundo de hoje não se construiu sozinho, ele é uma consequência de algo que aconteceu no passado. O ser humano de hoje e suas características não se formaram por acaso, foram estimulados e criados com o passar dos anos, sendo reflexo de manifestações, guerras, capitalismo, entre outros fatores que moldaram a personalidade do homem moderno. Por isso, acredito que conhecer um pouco desses momentos, pegar as reflexões como base e compreender os inúmeros ensinamentos que a leitura desses livros nos cabe é indispensável."
Jorge também relata que diversos títulos, como Peter Pan e Alice no País das Maravilhas, não servem somente para o público infantil, apesar de estarem ligado à ele. As duas histórias carregam essências unânimes que, muitas vezes, nem mesmo um adulto consegue entender, passando a considerá-las como fora de contexto, mas isso só acontece porque as pessoas se esqueceram de como é refletir sobre questões da vida, e quando são levadas a enfrentar esse desafio, desistem na primeira oportunidade.
"Se o indivíduo fosse um pouco menos impaciente, a leitura poderia se tornar mais presente e, talvez, até amenizar diversos problemas emocionais. [...] Quando uma pessoa lê com mais frequência, passa a entender o mundo de forma diferente, enxergando detalhes que as outras pessoas não conseguem captar, pois estão acostumadas a lidar com casos práticos comuns da vida real. Sem contar que, quanto mais estímulo nosso cérebro recebe, mais ele tende a encontrar saídas para os problemas impostos."
A verdade é que os clássicos, quando intitulados como inesquecíveis, deixam uma marca interior na alma do leitor. As histórias em si podem ser esquecidas, mas aquela cicatriz vai florescendo com o passar do tempo. Para Ítalo Calvino, os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa, bem como os traços que deixaram nas culturas que atravessaram. Ninguém precisa gostar das obras, mas basta conhecê-las com paciência para entenderem a real importância.
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